• O cachorro que se encontrava no fundo do mar era um poodle. Dava pra ver porque perto do cais as águas não são tão profundas. Podia ver até uma estrela do mar gigante, uma mancha laranja distorcida que as vezes formava uma estrela. Quando nadamos até perto ele acordou e veio até a superfície onde ele podia praticar seu nado-cachorrinho.

    No dia anterior uma moça de azul (completamente azul) puxava-o pela coleira. O coitado ofegante era usado como desculpa pela espiã que tratava de descobrir o que estávamos fazendo ali, naquela região. Haviamos cruzado um portal. Não tenho dúvidas quanto a isso. Enquanto olhavamos para o muro que cercava a casa-mirante um homem saiu da porta alí apoiada. Voltei meu olhar sobre a moça de azul que já ia descendo a ladeira em direção à saida. A placa que alertava os moradores quanto à denuncia de donos que não recolhessem as fezes de seus cachorrinhos não surtira efeito ou ela era imune a esse tipo de norma mesquinha da comunidade. Ou era ela mesma quem tinha colocado ali o tal aviso que concluia com o “apoio Clevernews”. Devia ser o jornal do bairro. Ou o marido pretencioso da mulher azul havia colocado ali uma assinatura sua de apoio para intimidar os moradores.

    Clever que não era lá muito esperto gostava de chamar atenção de todos ali. Não tinha muito dinheiro mas passeava pelas ladeiras exibindo sua variant beje. Muito vintage! O caminhão da Ultragas as vezes tinha que se retorcer e fazer mil balizas para desviar do carro. Só então podia dar sua volta clássica ao redor da praça. Em qualquer ouro lugar aqui poderia ser chamado de “balão” ou centro de contorno, era apenas um pedaço de terra circular no fim da rua. Mas os 3 bancos de cimento, a mesa de damas, um arbusto e um poste de iluminação dava aquilo um status de praça.

    Ao redor da praça encontravam-se as casa com seus respectivos muros pintados. Um deles com a inscrição “Copa do Mundo 2002 na Korea” denunciava ali uma comunidade coreana a não ser pelo fato de não termos visto uma pessoa se quer com traços orientais. A mulher azul com seus cabelos oxigenados não era mesmo um ser oriental, Clever talvez. Ou talvez a praça toda se encontrasse no outro hemisfério da terra e nós dois não tinhamos percebido ao cruzar o portal da pompeia.

    Alienados ou alienígenas não conseguiamos nos comunicar com as pessoas daquele lugar. Bom dia, boa tarde ou como vai não funcionava. Decidi descobrir o que havia atras da porta. Esperei o homem do muro sair de perto e espiei pelo vão entre o muro. Havia sim um recorte no concreto com um cadeado. Não tinhamos a permissão de entrar alí… talvez fosse outro portal. E a janela pintada ao lado dele talvez fosse mais real do que a propria porta apoiada no muro. O carpete na rua em frente a casa me fazia pensar que já estávamos dentro daquela porta e dentro da casa-mirante. Pois não havia mais dentro e fora. A praça já era tão íntima quanto minha cama. Subi no banco e na mesa de damas. Queria ver através da janela pintada. Queria ver o fora, o além. Cansamos de ficar alí naquele útero, aquele dentro demais que prendia.

    O Camihão da Ultragas dava a sua segunda volta pela praça tocando Für Elise de Bethoven, a variant beje logo em seguida. Seria bem possivel que estavamos alí 40 anos atrás. Seria possível ser tarde ao invés de manhã. Nada tinha indícios de tempo.
    “Baratas sobem pelos canos enquanto a gente, cansada, sonha.”

--
mais um realismo fantástico

--
“Es curioso, pero vivir consiste en construir futuros recuerdos (…)”