O que eu mais gosto em arquitetura é ficar sonhando pensando alto e projetando. Acho que o design tem um pouco disso, numa dimensão infinitamente menor, claro. Ouvir um arquiteto ou urbanista falando é como voltar a ser criança e ouvir minha vó falando sobre os lugares maravilhosos por onde ela viajava; como ouvir um contator de histórias mesmo. É tão lindo ver alguém sonhando, projetando idéias, imaginando lugares e transformações. Pena que aqui na terra tudo fica sempre diferente, o próprio dito “cair na real” já diz tudo.
Digo isso pois hoje fiquei lendo sobre a festarch – um festival de arquitetura que acontece em Cagliari, uma cidade da Sardenha na Itália. Esse festival propõe além de projetos pela cidade, discussões e um workshop sobre arquitetura e urbanismo e pesquisas em torno de quatro temas principais: repensar àreas industrias não utilizadas, a arquitetura que se mistura ao seu entorno, atenção à mobilidade na cidade e o poder de comunicação da arquitetura.
O Paulo Mendes da Rocha estava lá e falou umas coisas bem legais. Pena que ele fala em italiano e o site traduz para o inglês, fica uma salada russa. Mas achei bem legal duas coisas que ele aponta. A primeira é que ele não se vê como um arquiteto brasileiro, mas como um arquiteto ponto. Um arquiteto que pensa o entorno e que tem um conhecimento universal com seus referenciais culturais baseados na experiência humana e sua história. Eu penso assim dos artistas também. Essa coisa de ficar tentando emplacar uma “arte brasileira” genuina é muito bla bla bla e conversa pra boi dormir (e pra inglês ver e pra americano comprar).
Outra coisa que o Paulo Mendes da Rocha fala sobre seu projeto, que deveria ser colocado em prática para todo e qualquer ambiente, cidade, é que reparou que alí tinha um canal subutilizado. Ele propõe reformar o canal que vai direto a estação de trem e com isso repensar o transporte público da cidade. Ele fala que isso não resolve o problema da poluição, é uma alternativa ao tranporte automobilistico, e que se o governo quiser se precaver de um desastre ambiental devem parar de promover o uso do carro e ao invés disso encorajar conscientemente o uso do transporte público porque, em suas próprias palavaras, “carros são inimigos da cidade”.
Se todo o prefeito, governador, urbanista, observasse no caos da cidade esses pequenos canais, saídas para um futuro melhor… mas a realidade é bem outra. Outro dia peguei um taxi no meio da confusão do trânsito e eu perguntei pra ele o que ele achava daquela cena o que ele proporia para mudar. Ele me falou que o problema era que todo mundo agora compra carro. “Compra um carro em 80 meses só que em 30 já tem que vender porque não consegue pagar a dívida”. Aí fica esse trânsito! O problema todo pra mim foi o plano real maldito tá vendo? Fora que o governo realmente não faz nada para conscientizar os cidadões da megalópole encardida e encorajar o tranporte público. Fodam-se os pobres que não tem carro. É como no anúncio de TV em que o ator daquela série 24horas (Jack Bauer) fica dentro do seu carrão com janelas blindadas com seu som mp3 stereo gostoso e a cidade vazia e quando ele abre a porta do carro o que aparece é um caos absurdo. Moral da história: continuem dentro de suas bolhas de petróleo levando essa vida alienada.
Leiam apocalipsemotorizado pelo menos é um respiro e um ufa! ainda tem gente bacana com propostas inteligentes pra isso tudo melhorar.
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