literature.
abr 22.09 | pedra sobre pedra
Em uma aula, sendo perguntado sobre o significado de ‘arte’, o Agnaldo Farias mencionou o poema “Catar Feijão” do João Cabral sobre como as coisas estão aí como pedras e os artistas as tornam visíveis. Segundo ele “o artista dá a ver o problema, traz à tona aquilo que fica submerso para outros…”. Logicamente foi lembrado em aula a “pedra no caminho” do Drummond, mas o que me veio à cabeça na hora foi a música do Caetano “If you hold a stone”.
Fui procurar alguma coisa sobre essa música e fiquei surpresa ao ler um trecho do Verdade Tropical onde o Caetano fala que a música é uma homenagem ao trabalho da Lygia Clark. Achei curioso essas sincronias… pedras e arte. Abaixo o trecho do livro do Caetano e o poema Catar Feijão.
“
Lembro nitidamente a menção da palavra pedra na descrição que Sônia fez do que viu de Lygia numa grande exposição coletiva do MAMB que eu, não sei por quê, não visitei. Parece-me que ela – que estava terminando um quadro abstrato que me parecia belo e que a levava às lágrimas enquanto era pintado – se perguntou se valeria a pena abandonar o óleo, a tela e os pincéis e participar de uma exposição com um “saco plástico cheio de água com uma pedra em cima”. É curioso que eu tenha tal lembrança, pois não sei o que poderia Lygia estar expondo em Salvador em 63-4. Acho que a frase de Sônia era uma espécie de suposição exagerada, mas é curioso que o que Lygia veio a fazer (e que eu homenageei numa canção de 71 – “If you hold a stone” tenha tido tanto a ver com essa descrição.”
[Caetano Veloso - Verdade Tropical]_______________________________________________________
1.
Catar feijão se limita com escrever:
joga-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.2.
Ora, nesse catar feijão entra um risco:
o de que entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá à frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a como o risco.[Catar Feijão - João Cabral de Melo Neto]
nov 12.08 | tic tac cuco!

Relojinhos de Maria Makowska do studio GOGO achados no designboom.Instrucciones para dar cuerda al reloj
Allá al fondo está la muerte, pero no tenga miedo. Sujete el reloj con una mano, tome con dos dedos la llave de la cuerda, remóntela suavemente. Ahora se abre otro plazo, los árboles despliegan sus hojas, las barcas corren regatas, el tiempo como un abanico se va llenando de sí mismo y de él brotan el aire, las brisas de la tierra, la sombra de una mujer, el perfume del pan.
¿Qué más quiere, qué más quiere? Atelo pronto a su muñeca, déjelo latir en libertad, imítelo anhelante. El miedo herrumbra las áncoras, cada cosa que pudo alcanzarse y fue olvidada va corroyendo las venas del reloj, gangrenando la fría sangre de sus rubíes. Y allá en el fondo está la muerte si no corremos y llegamos antes y comprendemos que ya no importa.[Julio Cortázar - Historias de cronopios y de famas]
Audio clip: Adobe Flash Player (version 9 or above) is required to play this audio clip. Download the latest version here. You also need to have JavaScript enabled in your browser.
out 13.08 | Fagulhas e respingos
Lindo o miniconto que o Jorge Coli colocou la no Ponto de Fuga ontem:
“Vivi meses por conta de maria. Do trabalho rotineiro e de maria. Chegava e já ligava para ela, recebia ordens, ia visitá-la, jantava -raramente ia ao cinema ou ao teatro. Uma pessoa difícil. Suave e carinhosa por vezes, cruel e sanguinária por outras. Os versos de Carlos a ribombar: “A chuva me irritava. Até que um dia, descobri que maria é que chovia”. Sento-me defronte à calçada, aguardo amigos que chegarão. Há tempos não chegava ninguém. E maria respinga, mas não chove mais.”
— extraído do recente “Ruídos Urbanos”, de Moacyr Godoy Moreira.
Ilustra de Irena Zablotska
Leia mais…
set 09.08 | Amores privados em lugares públicos
A revista Época publicou trechos de cartas eróticas inéditas escritas por Guimarães Rosa para sua mulher Aracy de Carvalho. A matéria tem como título “P.S.: Beijo tua boquinha gulosa”. Eu acho um pouco bizarro o fato de duas historiadoras publicarem um livro com as tais cartas, meio invasão de privacidade, sei lá. Por mais lindas que sejam, o escritor deve estar se revirando de vergonha no caixão, rs! Aí vai um trecho:
“Antes e depois, beijar, longamente, a tua boquinha. Essa tua boca sensual e perversamente bonita, expressiva, quente, sabida, sabidíssima, suavíssima, ousada, ávida, requintada, ‘rafinierte’, gulosa, pecadora, especialista, perfumada, gostosa, tão gostosa como você toda inteira, meu anjo de Aracy bonita, muito minha, dona do meu coração”.
Acima uma fotografia linda de Guimarães Rosa e Aracy em Veneza que pertence ao acervo de Eduardo Tess, filho do casal, recentemente organizado (aliás por um amigo meu!) citado na revista Bravo!.
set 03.08 | ops, tem um errinho aí
Lindo o portfolio de Albert Pereta que foi citado no Fffound hoje. Só um detalhe: reparem na frase “Falling in love”. É JORGE e não JOSE Luis Borges caramba. Só por curiosidade a frase original é: “Uno está enamorado cuando se da cuenta de que la otra persona es única”

